Desafio #40 – Nada

Neste episódio escrevemos textos sobre Nada e, acredite se quiser, muita coisa foi dita, e muita coisa ficou nas entrelinhas.  

I – No caminho para a rodoviária, Carolina reflete sobre o significado  de não fazer nada ou não dizer nada ao longo da sua vida (Nada é Muita  Coisa) 

II – As seis da manhã, um homem sentado na praça observa o movimento ao  seu redor.  

III – Numa bela manhã chuvosa de sábado, Adan acordou com um objetivo em  mente (Adan)  

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Nada é muita coisa (Robson)

“O que você acha que vai acontecer nessa viagem?”

“Nada.” Carolina respondeu automaticamente.

“Nada pode ser muita coisa”, foi a resposta que veio.

No caminho para a estação, Carolina ficou pensando naquela palavra que ecoava na sua cabeça: Nada.

Lembrou de um antigo namorado do ensino médio que tinha terminado com ela por algum motivo idiota e feito um discurso imenso para se justificar. “E aí? Não vai falar nada?” ele disse no final, já irritado com o silêncio. Carolina só encolheu os ombros, ele bufou e foi embora.

Às vezes não dizer nada dizia muita coisa.

Outras vezes, era só uma forma de evitar conflito, e Carolina aprendeu isso rápido quando era criança. Cada vez que tentava se explicar ao levar uma bronca, era correspondida com um tapa ou um grito na cara, dizendo para ficar calada, para respeitar os mais velhos, para obedecer os pais, para se colocar no seu lugar, para se colocar no lugar de outra pessoa, para não querer ser igual as outras pessoas, para ser como as outras pessoas, para se olhar no espelho, para olhar os outros nos olhos quando falam com ela, para baixar a cabeça quando falam com ela, para não falar com estranhos, para ser educada, para não ser assim.

Os pais tomavam o silêncio como submissão e respeito, mas o mesmo não valia para fazer nada. Se a mãe lhe perguntasse o que estava fazendo e Carolina respondesse “nada”, logo vinha uma ordem para lavar a louça, recolher a roupa, varrer a calçada, tirar o pó dos móveis, levar o lixo para fora, encerar o chão, estender os tapetes, havia sempre trabalho a fazer pela casa, era só procurar.

Carolina gostava de deitar na sua cama e olhar pela janela, gostava de ver os longos eucaliptos balançando contra o céu nublado, trazendo um prelúdio de chuva, era quase como olhar num espelho. A isso chamava fazer nada. Sabia, agora, que isso não era bem verdade. Talvez soubesse desde sempre que nada é sempre alguma coisa.

Se o pai, num dos raros momentos que estava em casa, a surpreendesse num momento de aparente ócio, logo a mandava estudar, e se não quisesse estudar que dissesse porque ele logo arranjaria um emprego para ela se ocupar. “Se ocupar”. Era preciso sempre estar fazendo alguma coisa, não qualquer coisa, mas alguma coisa útil.

Carolina passou a deitar na sua cama sempre acompanhada de um livro da escola. Segurava o livro erguido, mas mirava sempre a janela, assim a deixavam em paz na maior parte do tempo. Era preciso fingir que fazia alguma coisa para poder fazer nada.

Os pais não tinham culpa de ser assim, ela bem sabia. Tinham crescido em outro mundo, numa realidade completamente diferente que não os ensinou o que é o lazer porque não havia tempo para isso, e muito menos para fazer nada. E assim a geração de Carolina cresceu carregando uma espécie de culpa sempre que se permitia não fazer nada. O mundo se movia muito rápido, era preciso estar sempre fazendo alguma coisa, ou então ficar-se-ia para trás. Ou ao menos era isso que diziam, aos 30 anos Carolina já tinha experimentado os efeitos daquele estilo de vida, e agora ansiava novamente por poder fazer nada, sem culpa.

Carolina ajeitou a mochila nas costas e respirou fundo antes de subir no ônibus. A bagagem era pesada, e nada ficaria no seu caminho.

Sem Nome (João)

    Seis da manhã em ponto e ele se encontrava sentado num dos bancos de pedra da praça próxima do coração da cidade. Uma névoa matutina pairava ao seu redor, e era possível ouvir o burburinho lento que se desenrolava anunciando que logo a cidade ganharia vida. Pessoas começavam a circular: homens, mulheres, crianças, filhos e filhas, estudantes, trabalhadores, operários, vendedores, vagabundos, desocupados, desatentos, despreocupados, viajantes, vagantes, errantes, desencontrados, perdidos, contentes e amargurados.

    Pessoas se sentavam ora que outra em outros assentos já que os bancos da praça faziam parte de um café famoso do local. O sol saía com timidez de trás das nuvens e vivificava ainda mais o cenário. Clientes sentavam, comiam suas tortas, bolos, pães de queijo e bebiam seus cafés, águas e chás. Buzinas e britadeiras se misturavam ao fulgor fônico de conversas paralelas, perdidas e desfocadas naquela cacofonia emaranhada e ainda assim perfeitamente ordenada. Ele folheava seu jornal sem prestar atenção, mirando os passantes por trás dos óculos e sem piscar. Nem uma alma sequer o notava, como se fosse invisível, e ele apenas olhava. O que estariam fazendo, para onde estariam indo, e por qual propósito? Indagou.

    O televisor do estabelecimento anunciava mudanças climáticas e o jornal confirmava com notícias de chuvas, alagamentos, desmoronamentos e outros desastres. Estava mais quente, e também mais frio. A gangorra pendia, ia e vinha, será que eles não percebiam? Será que não se importavam?

    Havia guerra. O noticiário também anunciava as mortes, os acordos políticos, as tentativas de diplomacia, os feridos e os refugiados. Curiosamente, o que mais se ouvia eram os peritos remotos, ou assim ele os chamava. Os detentores de imprescindível conhecimento daquele conflito tão delicado que, de alguma forma, tinha sido obtido do conforto de suas casas e do quase-anonimato de suas redes sociais. Será que se comoviam? Será que eram capazes de empatia? Além da guerra entre nações, ele sabia que cada um deles travava suas próprias batalhas.

O que será que sentiam? Pelos outros? Por si? Em seu interior? Estariam se fechando cada vez mais? Como poderia haver bombas em um mundo onde existia a arte? Não teriam visão? Conhecimento ou discernimento? Tinham o dom da fala e ainda assim nada falavam, ou apenas palavras vazias. Como poderia haver nobreza enquanto havia escravidão? Tinham o dom do sonho, mas será que sonhavam? E se sonhavam, seria só isso? Se bastavam disso? Sonhavam com isso? Ele não sabia dizer.

Estariam pesarosos demais para agir? Poderiam salvar o que estavam destruindo? Deveria haver algum meio. Poderiam impedir essa decadência? Por trás das falas, dos agradecimentos, das conversas e discursos, ele ouvia seus choros e gritos de angústia, vivos pelo fogo em seus olhos. Conseguiriam sentir esse fogo? O amor em seus corações? Queriam liberdade. Sua dor era palpável. A destruição era iminente, mas o que fariam para impedi-la?

Adan (Othávio)

    Numa bela manhã chuvosa de sábado, Adan acordou com um objetivo em mente. Desligou o celular de imediato, tão comprometido estava com a causa, partindo para a cozinha logo em seguida, onde preparou o que, em sua opinião, era o melhor café que já havia feito. Deliciou-se por vários minutos enquanto potiava pão de mel em seu café.

    Apreciou a chuva ao mesmo tempo em que admirou a despreocupação com que cada gota d’água atingia o chão. Sentiu-se uma delas naquele sábado tão atípico, descompromissado com a vida, apenas deixando-se levar pelo dia.

    Sentou-se no sofá e deixou o noticiário rodando de fundo, enquanto a mente ocupava-se de ideias. A guerra na Ucrânia preocupava a mesa de debate das mais diversas emissoras, tão distante mas tão próxima nesse mundo globalizado, era o que diziam. Em outras notícias mais nacionais, mais um esquema de corrupção se descobria em uma entrevista completamente constrangedora com um dos filhos do presidente. Adan pensou que sentia falta das manchetes mais descontraídas dos finais de semana, destacando as sensações da internet, por exemplo. Mas sabia que não havia mais espaço para levezas no noticiário, então decidiu por sair de casa.

    Levou sua bicicleta e um rádio de pilhas que tinha um conector para fone de ouvido. Pedalou por horas ao som de músicas da sua adolescência, transitando entre Beatles, Rolling Stones, Cindy Lauper, Ultraje a Rigor, RPM, entre tantas outras bandas que marcaram sua geração. Era grato por ainda haver uma estação de rádio dedicada aos trintões.

    Circulou a cidade sem rumo, dando voltas em uns quarteirões aqui e ali, parando para tomar um ar volta e meia, cumprimentando alguns conhecidos que encontrava pelo caminho. A chuva já se fora há muito tempo, mas seu frescor ainda enchia os pulmões de Adan.

    Parou para almoçar em uma lanchonete da rodoviária, que mantinha o mesmo cardápio da época em que seus pais o traziam para lanchar ali. Sentiu-se inclinado a pedir “o de sempre”, mas não reconheceu o atendente, e pensou que já fazia tempo demais que não passava por ali.

    Enquanto aguardava por seu pedido, Adan pensou em tudo que já havia feito naquela manhã de sábado, e tudo que ainda tinha pela frente. Lembrou-se das saídas de rotina de seu pai, que transformaram um final de semana qualquer em uma grande aventura sem destino, como a que fazia neste momento. 

    “Preciso fazer isso mais vezes” Pensou ele, enquanto aproveitava seu pastel de carne, “E se algum dia tiver filhos, quero fazer o mesmo com eles, mostrar que tirar um tempo pra fazer nada é até mais importante do que viver atarefado.”

***

    O pai largou o pequeno caderno, com os olhos marejados. Ficou ali por um tempo, soluçando com seus pensamentos. Foi um toque no ombro da esposa que o trouxe de volta para a realidade. Enxugou as lágrimas e disse estar bem, amenizando o olhar preocupado da mãe. Deixaram o quarto do filho em silêncio, o pai carregando o peso de cada linha consigo, decidido a fazer algo diferente no dia seguinte, a eterna promessa de aproveitar o tempo com a família lhe cobrava nesses momentos, e ele estava mais do que inclinado a cumpri-la.

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